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exercito, tornado centro de todos os exercitos Francezes, o negoceador de Leoben, de Campo Formio, et de Tolentino, e o chefe, olhado pelo Directorio como uma potencia, e pelos Francezes como uma esperança. O Egypto se lhe apresenta entao como um ensaio de soberania, que em cazo de desgraça lhe offerecia um azillo independente. Desde esse tempo existia na sua cabeça o projecto de transtornar o Imperio Ottomano, e de se estabelecer na Asia Menor: tal foi o verdadeiro objecto da expediçao de S. Joao d'Acre.

"Nao há já que fazer na Europa, há duzentos annos a esta parte," me dizia elle em em Setembro de 1804: "hé somente no Oriente, aonde se pode trabalhar em grande." Mil vezes lhe ouvi repetir esta idea, e queixar-se dos limites que a civilisaçao da Europa oppunha ás grandes emprezas. Ora um espirito que so vê os objectos com tanta generalidade, deve sempre tender a estender-se, e a desgostar-se rapidamente das couzas sensiveis e uzuaes para correr a traz das que só a imaginação pode crear e tocar. Assim vimos nós o progresso illimitado de suas emprezas, sen que nunca se podesse contentar com o pôsto a que tinha chegado. O Consul, por dez annos, aniquilla, subjuga, e anulla os seos collegas; destroe a constituiçao, excluindo della o Tribunado; faz-se Consul por toda a vida; e quando tinha calculado bem o que podia, eleva-se a esse throno, que há muito cobiçava, e o condecora com um titulo mais brilhante, só na idea de ficar mais alto para poder ser visto de mais longe. Depois encarregase de uma nova coroa em Italia; engrandece-a com os despojos dos pequenos estados, que ainda existiaō naquella Peninsola, e com os dos Austriacos, nas provincias Venezianas; com o reino de Napoles, que dá em uzo fructo eventual a sua irmam; e com os despojos da Prussia, cujas fronteiras faz recuar entre ruinas, das quaes elle mesmo fica em parte gozando. Depois ainda estabelece sobre um novo throno outro irmao, que vem correndo da America ao cheiro desta immensa céva de thronos da Europa; povôr a Alemanha de grandes feudatarios, aos quaes vende ast novas dignidades á custa da sua dignidade pessoal, do sangue, do dinheiro dos povos, e da felicidade de seos proprios vassallos. Entao tranquillo a respeito do

Norte e do l'Est da Europa, passa a envadir a Toscana, e Portugal, e a representar, por meio da mais execravel traiçao, as deploraveis scenas de Hespanha, daqual se pertendia asenhorear, como elle mesmo me disse em Valladolid. Segue-se a expulsao atroz do Papa, e a atribuiçao desta Soberania nominativa para o primogenito da sua familia; a expulsao escandaloza de seo proprio irmao de Hollanda; o despojo do de Westephalia, privado de uma porçao de scos Estados pela invasao das terras da baixa Allemanha, encravadas entre a França e as cidades Anseaticas; e finalmente, apodera-se destas sem razao e sem cerimonia, para unir com o Imperio Francez territorios que de nenhum modo podiao ter connexao com elle. Esta serie de invazoens, das quaes uma servia sempre de estrada para a outra, deixa bem ver a verdade da asserçaõ, que Napoleaō nao perdêra um so instante de vista o projecto de sobmeter o mundo ao seo dominio. Elle queria fazer com este o que fez com a França, daqual se constituio despota desde o dia em que subio ao throno. Era tao impossivel para elle supportar uma contradicçao na Europa como em França. O homem que nos mais graves debates com as maiores potencias da Europa tratava publicamente os embaxadores destas como os seos proprios Camaristas, ou o seo Corpo Legislativo, nao podia co-existir com couza alguma que fosse semelhante ou paralela a elle. O mundo nao podia ter dois senhores, nem podia Napoleaō consentir em ser o segundo.

Poucos dias antes da sua partida para a Russia, em uma audiencia que deo aos Bispos que voltavam de Savona, aonde estava entao o Santo Padre, lhe ouvi eu proferir as seguintes palavras :-" Logo que eu terminar o que se prepara, e mais dois ou tres projectos que tenho em vista, disse elle batendo na testa, bade haver vinte Papas na Europa; cada um há de ter

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o seo."

Em Novembro de 1811, no fim de uma longa conferencia em que se alargou a respeito das particularidades lisongeiras da sua viagem a Hollanda, me disse transportado de prazer pela sua posição:-" Dentro de cinco annos heide ser o senhor do mundo: nao me falta mais que a Russia, mas eu a esmagarei,

Paris há de estender-se até Saint Cloud. Eu construo quinze náos cada anno, mas nao hei de lançar uma só ao mar em quanto nao tiver cento e cincoenta. Hei de domina-lo assim como a terra, e entao todos haō de passar por minhas maos para o commercio, e naō hei de admitir se nao o que me trouxer milhaō por milhaō.” Tal hé a sua unica theoria de Commercio, que já me tinha largamente desenvolvido em outra conversaçao que com elle tive na volta de Hespanha.

Esta tendencia para os thronos e para o poder nao hé exclusiva em Napoleaō: ella existe em toda a sua familia. Joze, Jeronimo, Luis, a Gram Duqueza, tao galantemente denominada-a Semiramis de Luca, todos tem a mania de possuirem thronos, e nao pensao nem ambicionao senaō honras soberanas. Nao há um só individuo desta singular familia, que se naō creia ab eterno destinado para reinar e commandar; que nao olhe a privação de um throno como a violaçao de todos os direitos divinos e humanos; e que se nao julgue indispensavel para a felicidade dos povos: por mais que o mundo os repulse e afaste com horror, elles nao se julgao menos soberanos legitimos, necessarios, inprescriptiveis. Nao sei quem poderá explicar a facilidade com que se esqueceram do passado para nao verem mais que o futuro; mas hé certo que esta disposição de espirito existe em todos elles, e hé preciso. absolutamente que reinem. Joze pensa, que todo o sangue e todo o oiro de França sao bem e justamente empregados para o estabelecer no throno de Hespanha. Por mais que esta lhe grite com o sangue de dois milhoens de Hespanhoes, mortos para o expulsar, e com a voz de todos aquelles que o seo furor deixa respirar na quella terra desolada, que ella o nao quer; por mais que a França (que até o nao conhece se nao pela luxuria e desastres, que o acompanharam em todos os thronos em que se tem ensaiado) lhe faça saber que já basta de sangue Francez, derramado para o fazer senhor de um povo, que antes quer a morte do que tê-lo por Soberano; elle nao persiste menos em querer reinar em Hespanha. Luis hé maniaco com a soberania da Hollanda: a França, a Hollanda, e a Europa inteira o declararan decahido do throno, e elle continua ainda a julgar-se Rey de Hollanda pela graça de

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Deos, e a conservar no interior de sua caza uma sombra de soberania a mais ridicula do mundo. Jeronimo hé, depois de Napoleao, o mais ambiciozo de reinar: bem cuidou elle ser Rey de Polonia!

Esta mesma disposição existe no mais alto grão entre algumas mulheres desta familia. A Gram Duqueza merece um lugar mui distincto entre as pessoas do seo sexo, que mais se asignalaram pela voracidade das suas ambiçoens.-Hé Agripina, sempre disposta a proferir a verdadeira expreção do ambiciozo-Occidat modo imperet; "Morrâmos, com tanto que reinemos." A Rainha de Napoles nao lhe cede nada nesta linha de comportamento. Esta paixao não hé porem nesta familia, como entre os grandes homens, um motivo de grandes acçoens, de grandes virtudes, e o germen e desenvolvimento das qualidades elevadas, que distinguem os grandes ambiciozos; nao, nada há pessoalmente mais obscuro nem mais rasteiro do que esta recua de cobiçadores, e possuidores de thronos. Seo unico titulo hé seo irmao: desde que este foi feito Soberano, todos elles o quizerao tambem ser, e nao cessaram de o atormentar com suas pertençoens. Todos sabem a engraçada resposta que deo o Imperador a um destes reys, seos familiares, que se inflamava para o persuadir que lhe devia augmentar os seos estados: "Quem nos ouvir," disse elle, "há de pensar que vos privo da herança do defuncto rey nosso pai." A ambição do Imperador, mais elevada e poderoza, absorvia estas ambiçoens subalternas, reunidas em torno da sua, como satelites a roda de um planeta....

O auctor, depois de descrever os meios que empregou Napoleaō para adormecer o governo da Russia desde a paz de Tilsit até o momento da invasaõ deste Imperio em 1812, prova com toda a evidencia, que Buonaparte foi o auctor voluntario, e nao provocado, da dita guerra; e que o Imperador Alexandre fez quanto cabia na dignidade de um grande Soberano para evita-la. seguintes passagens desta parte da obra me parecem dignas de ser conhecidas:

As

- Devemos confessar, que desde a paz de Tilsit, desta paz, em que a guerra ficou tao bem estabelecida, todos os que sabiao pensar viram formar-se e engrossar-se a nuvem de que devia rebentar a tormenta com que se

haviaõ de perturbar os dois Imperios; e marcaram a grande epocha da explosao, conhecendo, que a questaõ se havia de estabelecer sobre o commercio com Inglaterra; e que Napoleaō, com o pretexto do seo sistema continental, havia de querer estender-se até o fundo do Baltico, deixando á Russia a escolha de resistir a todo o risco, ou de receber guarniçoens desde Riga até Arcangel. Isto era publico em Paris. Os que ouviao os Polacos naquelle tempo viao igualmente que a guerra era inevitavel. O Ducado de Varsovia era o ponto de esperança. Isto era como o segredo da Comédia, que o sabe todo o auditorio. O Imperador mo declarou mesmo na sua audiencia de Dresda; e a dizer a verdade, bem podéra poupar o trabalho dáquella revelação, por que havia já muito tempo que eu o sabia.

Em todo o inverno de 1811 para 1812 nao se ouviaō em Paris se nao o estrondo de preparativos, e os ameaços de guerra contra a Russia. Paris estava feita uma praça d'armas, e uma terra de tranzito para as tropas que, vinhao de todas as partes do Imperio para esta expediçao. Os Polacos forao mandados vir do fundo de Hespanha; a guarda Imperial tinha partido de Paris; os contingentes da Confederaçao estavaō em movimento: nao se esperava mais que a aparição do sol sobre um horizonte mais elevado para dar o sinal do combate.

Seja-me permitido fazer aqui uma comparação da conducta de Napoleaõ á respeito do Imperador Alexandre com a que elle teve com o desgraçado Principe das Asturias. Em ambos os cazos tratou de proceder por doble surpreza á respeito de um e de outro; surpreza de couzas, e surpreza de pessoas. Antes da expedição de Hespanha, o Imperador fazia espalhar mil boatos sobre o seo projecto:-era o cerco de Gibraltar, a invazao de uma parte da costa de Africa para interceptar completamente a entrada do Mediterraneo. A desgraçada Côrte d'Hespanha só na ultima extremidade he que soube a sorte que lhe destinavaō pela rapida carreira, que para isso fez um tal Ezquierdo, agente do Principe da Paz. Assim tambem, para enganar a Russia sobre os destinos das tropas Francezas, fizeraō circular, durante o inverno, boatos

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