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A' El Rey, Luis XVIII., parece que falta muito daquella consistencia de caracter que já deitou a perder seo irmao: querer na apparencia seguir a op:niao publica, e procurar com manejos occultos destruila hé uma marcha mui perigoza ein tempos de fermentaçao, e pouco favoraveis ao governo. Consta que elle, fallando de Fernando VII. de Hespanha, dicéra a sentença seguinte :-Mon frère d'Espagne se depêche trop ;-" Meo irmaõ de Hespanha vai hindo inui de pressa."-Nós porem somos de opiniao, que un homem com o caracter de Fernando, hé mais capaz de manterse no seo pôsto do que outro com o caracter de Luis XVIII. Ambos estes planos sao com tudo mui perigozos: o unico, bom e verdadeiro, hé o da moderaçao, e particularmente da franqueza, e lealdade em todas as acçoens.

O Projecto proposto na Camera dos Pares para abolir a escravatura Europea, forçando as Patencias d'Africa a seguir os dictames nesta parte de todos os governos civilizados, dará de certo muita honra á paçao Franceza, e ganhará muito melhor fama e reputaçaõ em acabar com o commercio infame e vergonhozo dos escravos brancos, do que ganhará Inglaterra em acabar com o dos escravos negros.

ROMA.

O artigo que debaixo deste titulo publicámos a pag. 821 hé ainda um daquelles que, sendo verdadeiro, muito bom nome dá ao gabinete Portuguez e ás beneficas intençoens do nosso Principe. X Inquiziçaõ hé um tribunal do maior discredito para a religiaõ Christam, e da maior vergonha para os governos civilizados da épocha aetual. Hé quase incomprehensivel como em nome de uma religiao, toda de paz e caridade, houvesse quem ouzasse crear um tribunal só digno de · selvagens, ou de monstros; e ainda mais incomprehensivel hé como tenhaõ havido Monarcas, que nað só o tenha auctorizado, mas até hajao prezenceado sem horror suas execuçoens barbaras e atrozes, bem semilhantes á horridos festins de Canibales ! Mas já hé

tempo de acabar por uma vez com essa Instituiçaõ escandaloza: a opiniao publica do mundo inteiro já tem lavrado contra ella sua sentença irrevogavel; e a continuaçao da sua existencia seria um insulto feito á religiao e ao sentimento universal dos homens. Que tem com tudo que fazer o nosso governo com o Papa sobre este ponto? Nao hé a Inquisiçaõ um tribunal regio, e nao pode o Principe acabar com elle a toda a hora que lhe parecer? Consultar o Papa nesta materia, e agora no mesmo tempo em que elle resuscita os Jesuitas, bé embaraçar e pôr em duvida um direito, que hé inherente a Soberania Portugueza; e se esta já declarou, sem se emportar com as bullas de Roma, que nao queria estes, por que lhe naõ declarará tambem por uma vez, que nað só nao quer, mas que abomina aquella ? Se aos seos muitos titulos a gloria e estimaçaõ publica acrescenta o nosso Principe ainda este novo, o de-Debelador da Inquisiçað ein todos os seos reinos e dominios; poderá escolher ou ser chamado, como Tito,--As delicias da Patria ; ou o Hercules Luzo, por

haver debelado o maior monstro, que tem affligido a humanidade.

Por outras noticias de Roma consta tambem, que o Papa mandára partecipar aos ministros de Portugal e de Hespanha que a tortura estava abolida no santo Tribunal da Inquisiçao. Isto será talvez para ver se adóça a nossa corte; e agora mais nos persuadimos que terá recebido alguma Nota a este respeito por parte do gabinete do Brazil.

Porem nað se envergonha um Pontifice Romano, um Successor de S. Pedro, de confessar ainda agora o mundo que a Inquiziçaõ aplicava a tortura ? Hé verdade, que toda a gente bem o sabia, mas hé vergonhozo para quem se diz vigario de um Deos de paz e de humildade, declarar que por grande mercê, que faz aos homens, a Inquiziçao nao continuará a despedaçar como até aqui membros humanos para extorquir revelaçoens, quase sempre filhas ou da desesperaçaõ ou dạ fraqueza. E os carceres, e os processos misteriozos, é ocultos, nao sao ainda também outra especie de tortura que sempre permanece em quanto houver Inquisiçaõ. Pio VII. obraria com espirito mais Christað se aniquilasse este monstruozo Tribunal: a graça, que agora pertende

fazer ao mundo, parece mais filha de uma piedade ironica, do que de um verdadeiro amor do proximo.

HESPA N 11 A. Os antigos Romanos tocavao por um lado o apice da civilizaçao e urbanidade, e por outro o ponto mais infimo de uma barbaridade' grosseira. A escravidao humana na) repugnava nem à sua polidez nem á sua politica, e o homem que nað era Romano ou livre, era havido por barbaro ou escravo. Assim em proporçað ao respeito que se tinha pelo homem livre crescia o desprezo pelo homem escravo, e á este só hé que a legislaçaõ Romana aplicava as penas infamantes, e a tortura. Um unico cidadao Romano crucificado por Verres fez estremecer Roma; e o Juiz que em algum tribunal tivesse ouzado applicar os tormentos a um cidadao, teria sido pelo menos precipitado da Rocha Tarpeia entre as maldiçoens do povo Rey, por quem o genero humano era entao reprezentado. As naçoens modernas, formadas das ruinas deste portentozo povo, trouxeram comsigo toda a sua barbaridade e os seos vicios, e bem poucas ou nenhumas das suas virtudes. Os nogos Soberanos da Europa quizera) ter leis, e as forao desenterrar quase todas dos Codigos Romanos; mas infelismente apropriaram para si quanto era máo, e houveraõ em desprezo quanto era bom, justo, e liberal. Da pratica Romana tiraram pois os governos modernos o uzo da tortura ; e na sua aplicaçao despojaram seos subditos da alta dignidade de homens livres, 'fazendo-os descer todos a classe infima de

Porein nað hé isto o que mais nos deve fazer admirar. Que os descendentes dos Francos, Vandalos, Suevos, Muns, Alanos, Visigoths, Sarracenos e Tartaros, que todos passaram a governar sobre os despojos de Roma, tivessem adoptado esta ferós legislaçaõ, nem hé para espantar, nem muito para horrorizar ; 'porque Chefes, essencialmente barbaros, nao podiaŭ agradar-se senaõ de leis barbaras. Mas que os Pontifices de Roma Christam, os que humildemente se denominavaö---Servos dus Servos de Deos

escravos.

fossem tambem aquelles que sanccionassem esta atroz legislaçað, e aos filhos de uma religiao de caridade, que veio dar a liberdade ao mundo, nað tivessem pejo de fazer applicar a tortura nos tenebrozos calaboiços das suas Inquisiçoens, hé coin effeito um dos escan: dalos mais abominaveis com que se tem manchado a Curia Romana. Assim os vigarios de um Christo, que havia ensinado com a palavra e com o exemplo, que os homens começavao todos a ser livres e iguaes diante de Deos, vieram depois a contradizer estas maximas conçoladoras, provando de facto, que todos os Christaons pað eraõ mais do que méros escravos Romanos! Ao menos as antigas leis Romanas dispensavaõ ainda a metade, por assim dizer, do genero humano da aplicaçao destas penas crueis e infamantes; mas a legislacao de Roma moderna, e de todos os mais governos da Europa a aplicou ao mundo todo!

Na auzencia de El Rey Fernando de Hespanba os que governava) em seo nome foraõ assas humanos e justos para riscarem do codigo penal Hespanhol este vergonhozo resto de atroz barbaridade; mas tamanho bem, assim como outros muitos, nað era para durar. O amado Fernando naõ quiz que seo povo nem ao menos tivesse este distinctivo de povo livre ; aconcelhado de certo por ferozes Ministros, e por ferozes Inquisidores, reduzio novamente todos os Hespanhoes á infima classe de miseraveis escravos Romanos. Quando nisto conciderâmos, e em outros procedimentos humanos, envergonhâmo-nos de ser homens !

Esta nova lei da tortura em Hespanha chegou muito a tempo, por que dará agora occasiao a todos os algozes de ostentarem sua pericia na aplicaçað das mais exquisitas crueldades. Com ella as mais inveteradas vinganças se fartaráð, e os tigres, que só se nutrem de sangue e de mutilados cadaveres, exultará) de ferocidade e prazer no meio destes horridos festins. Quando assim falamos temos em vista a nova conspiraçao, que consta fôra descoberta em Madrid, e tinha por fim o assassinar El Rey e toda a sua familia. Dizem que muitos dos conspirados, ou suspeitos, já estað prêzos, e a todos se tem aplicado os tormentos. Entre estes se mencionao particularmente o General O'Donohoue, que perdéra todo o uzo das suas maðs por effeito da

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tortura, e o Intendente de Valencia que morreo sobre o pôtro. Já as vidas dos homens parecem pouco ; e a força e o poder só se contenlao com os gritos acerbos da intensa dor e desesperaçao. Mas naó ha de ser com estes castigos que se tornará mais firme a coroa de Fernando, nem elle há de ganhar a plena e geral confiança, sem a qual naõ durao os tronos nem, os Monarcas. Uma conspiraçao pode mui bem ser des coberta, porem das cinzas e do sangue das victimas della rebentaráõ ainda outras muitas, entre as quais pode bem ser que haja úma que consiga o seo effeito. El Rey de Hespanha nunca sustentara pois seo throno com cadafalsos e torturas; e só o manterá sendo justo, humano, e liberal. Cumpra com a sua palavra Real, que deo aos Hespanhóes no momento que sahio do seo captiveiro; porque se um Rey nað tem palavra, como quererá ser bem quisto ou estimado ? Esqueça por uma vez os erros daquelles que lhe quebraram as algemas, e que sempre na sua auzencia invocaram o seo nome e lhe reconquistaram o throno duas vezes perdido-pela abdicaçao e pela conquista; e fazendo-o assim, nem terá conspiraçoens que temer e que punir, nem torturas e cadafalsos que aplicar.

O governo Hespanhol, que está pondo agora toda a sua confiança pas armas e instrumentos dos algozes, tambem pertende achar salvaçao nas trevas de uma profunda ignorancia. Entre muitos factos que isto provao, temos o seguinte artigo, copiado do Morning Chronicle de 24 de Abril:

“O governo de Hespanha faz agora quanto pode para cortar com toda a correspondencia epistolar com Inglaterra. Ordens secretas se tem dado a todos os directores dos correios para que quando nelles

apareça alguma carta vinda de Inglaterra, se chame a pessoa para quem hé dirigida, se abra a dita carta da sua prezença, e se nella houver algum assumpto politico, seja o individuo prezo até rezoluçao de s. M. Outras ordens tambein se tem passado para nað enviar cartas para Inglaterra sem primeiro serem pagas, e disto bem se vê qual hé o motivo verdadeiro. A entrada de todos os livros estrangeiros foi estrictamente prohibida; e o possuir ou lêr uma gazeta Ingleza equivale a um crime de alta traiçao.” Vol. xv.

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