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Que desgraçado nað hé o governo que se julga na precisaõ de recorrer á taes medidas ! Cartas recentes de Paris, em data de 22 de Abril annunciao que o Conde Toreno, dois creados seos, e alguns Cavalheiros Hespanhoes bavia) sido prezos por ordem do governo Francez no dia 21. Nao se sabia porem ainda qual fosse o motivo destas prizoens; e se ellas procediao de offensas cometidas em França por estes Hespanhoes, ou de estar o governo Francez arvorado em official de Justiça pelo gabinete de Madrid.

PORTUGAL.

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Neste artigo, pag. 323, transcrevemos uma Carta, vinda de Lisboa, por que do seo assumpto se podem tirar avizos uteis, e com elles melhorar alguns dos males infinitos, que enfraquecem e desdoira) a nossa patria. Portugal hé um emfermo, e bem emfermo : qualquer parte do seo corpo, que se examine, mostra logo sinaes evidentissimos de consumpçað, e de falta de cuidado em o reanimar, o que he ainda peor. Coizas há que por muitos annos se tem feito, e continua a fazer, para as quaes hé impossivel achar uma desculpa racionavel. Por exemplo, como com bem razao e patriotismo nóta o aucior da carta, hé fado bem singular, que sendo o vinho o unico artigo que temos verdadeiramente importante, esse mesmo esteja ainda destinado para bir animar a industria estrangeira ! A excepçaõ das uvas, que ali nascem, e as quaes se faz a primeira operaçao para extrahir o vinho, tudo o mais hé feito pelo trabalho estrangeiro. Principia este por virém os gallegos fazerem a vindima, fallámos no alto Douro; segue-se depois envasilhar o viobo, e ahi apparecem logo as aduellas estrangeiras de que sao feitas as pipas, os aros de ferro, as garrafas, as rôlhas, &c. &c." Naš fica porem ainda aqui tudo; o mais escandalozo hé, que para preparar este mesmo vinho seja igualmente preciso recorrer a agoa-ardente estrangeira. Que Portugal tenha o melhor vinho do mundo, e na maior abundancia, e que ainda assim mesmo compre aos Francezes a agoa-ardente para o compor e

conservar, hé com effeito uma das mais riziveis indolencias, e miserias imaginaveis ! Que haja uma Companhia, destinada unicamente para proteger e augmentar o commercio dos vinhos, e que esta ouze pedir licença para importar em tanta quantidade agoasardentes estrangeiras, e que o Governo lha conceda, hé tambem um facto que só se pode conceber em uma administraçað tal como a nossa, aonde tudo se faz ou por empenhos, ou por outros meios, ainda peiores, que a seo tempo seraõ mencionados.

A lembrança do nosso correspondente sobre o artigo -Aduellas,-lé na verdade mui digoa de ponderar-se, e deve merecer toda a attençao do governo do Brazil. Tudo quanto for promover a industria nacional, e com ella impedir que recebâmos dos estrangeiros, aquillo que temos de abundancia em nossa caza, sempre

deve olhar-se como objeeto de primeira importancia. Mas quantas coyzas nao temos nós neste genero para as quaes parece que ninguem repára, e quę sað todavia merecedoras das mais sérias concideraçoens ? Para nað sahir-mos deste mesmo artigo-Vinhos;--copsta-nos que no Brazil entraõ francamente os vinhos estrangeiros da Europa, e até os do Cabo da Boa Esperança, E sendo isto assim, nað hé uma injuria bem prejudicial e palpavel, que se faz aos cultivadores de Portugal? Isto hé o mesmo que permitir aos estrangeiros que venhao cortar pela raiz as nossas vinhas para que nao assom. brem as suas.

Em

quanto pois nað se olhar para estes e outros grandes defeitos capitaes, que há em nossa administraçao, bé escuzado pertender ter industria e riqueza: com taes maximas, e com tal pratica nao pode haver sena) muita mizeria publica, e ainda maior mizeria particular. Parece com tudo que este nome industria, hé um nome quimerico, ou totalinente des conhecido dos empregados publicos da nossa terra; e a prova d'isto hé outro facto que na sua carta aponta o nosso correspondente. A importantissima Fabrica de Costumes de Odimira está fechada só porque se diz que pertence a um Francez; e assim debaixo deste miserabilissimo pretexto priya-se o paiz de ventagens concideraveis, e se estanca. uma fonte certą de prose peridade e de riquezas. Em uma palavra, se vamos neste andar virá tempo em que nao coma nem vista

os Portuguezes um só artigo que lhes nað venha dos estrangeiros, bem entendido em quanto tiverem dinheiro para o pagar; por que acabado elle (pois nað hé inexgotavel), entao será preciso, por ajuste de contas, entregar a esses mesmos estrangeiros até as proprias cazas e o proprio territorio, e começar depois a servilos como miseraveis escravos ou llotas, para poder haver delles um grosseiro vestido, e um modico alimento. Desta arte, do auge da maior riqueza e abundancia cabe o homem inerte na mais vil degradaçao.

Nodo Assumpto, prometido em o No. antecedente, A pag. 235 do No. LVIII., Artigo-Correspondencia,- publicámos nós uma Carta, datada de Lisboa, e assignada-Lusitano. Entao prometemos fazer algumas reflexoens á cerca dos pontos que ella tratava, e isto agora vamos já cumprir. "As ideas, e os dezejos do nossa Correspondente parecem ser, segundo noticias posteriores que havemos recebido, os de todos os bons Portuguezes da Europa. Na grande e dificil contenda que tað felismente terminou á bem dos principios da civilisaçaõ, e independencia das naçoens, todos os habitantes do vasto Reino Unido Portuguez deram com effeito provas bem decisivas do seo patriotismo, Jealdade, e amor ao seo Soberano; porem hé precizo igualmente confessar, que nenhums desenvolveram tamanha energia, nem sofreram tanto como os do reino de Portugal. Estes, na verdade, tem a honra indisputavel, no meio da orfandade em que se viram pela auzencia do seo Principe, de conservar illezo e gloriozo o throno Luzo, e de libertar a patria, por um momento surprehendida, e forçada a tolerar o jugo estrangeiro. E entað se as provas de seos heroicos serviços sao tað brilhantes e magnificas, naõ teráõ elles tambem juz a alguma brilhante e magnifica recompensa ? O premio hé o natural alimento das virtudes : o nosso Principe o sabe; elle hé generozo e bom; e assim lh'o hade dar,

Assim que o nosso Principe tomou a rezoluçao de passar com o throno para o novo reino do Brazil, os Portuguezes da Europa entraram a sentir perdas bem

sensiveis, porque alem de já naõ terem no meio de si o seo Monarca, perda que ao seo amor nunca pode esquecer, começaram a achar espaços immensos entre elles e as graças e justiça do seo Soberano. Portugal, que nem de direito nem de facto pode ser colonia, o tem sido de alguma maneira em virtude das circunstancias perigozas do tempo, e dos poderes assas limi. tados daquelles que até aqui o tem governado. Estes, só com auctoridade absoluta para o mal, isto hé, para punir em nome do Principe, e declarando nao poderem fazer justiça em nome d'aquelle mesmo á sombra de quem exercem só medidas rigorozas, formao com effeito um governo bem incomprehensivel, que nunca pode convir a um reino independente, e com espe. cialidade a um reino, como Portugal, que segundo já dicemos, tem todo o juz à grandes recompensas, nað só como berço gloriozo da Monarquia, mas como credor de muitos agradecimentos publicos, pelas espantozas maravilhas, de patriotismo, de lealdade, e de valor, que tem obrado. Hé logo evidente que a administraçaõ que o tem dirigido em tempo de guerra pað lhe pode convir para tempo de paz. Necessita ter um governo, qualquer que elle seja, amplamente auctorizado para o bem e para o mal, isto hé, para fazer graça e justiça, e para processar e punir, sem precizar nos cazos mais ordinarios e triviaes recorrer a muitas mil legoas de distancia. A razaõ, e a justiça saltað aos olhos de todos neste importantissimo as. sumpto.

Portugal, pela sua antiguidade, pelos seos feitos heroicos em todas as idades, e por ser o berço illustre da Monarquia Portugueza, nað merece passar a uma . condiçaõ inferior a de que actualmente goza o recente reino do Brazil. Portanto, o meio mais justo e prudente que, em nossa opiniao achâmos, para melhor compor todas estas dificuldades, em quanto o throno se conservar no Brazil, seria :-que para governar Portugal fosse nomeado o Principe herdeiro presumptivo da Coroa; com un concelho de homens probros e instruidos, que bem o aconcelhassem e dirigissem. Com este plano faziao-se dois bens muito essenciaes : 1°. Acostumavase o Principe, destinado um dia a governar os vastos Estados do seo Reino Unido, ao laboriozo e dificil

trabalho da publica administraçao; e quando a Provi. dencia o destinasse para hir occupar o throno de seo pai na outra parte do mundo, nað só levaria já comsigo o amor e as saudades dos seos povos da Europa, porem o pleno conbecimento das suas precizoens, e do seo estado politico, civil, e local; e entað la mesmo de longe ficaria mais habilitado para lhe fazer todo o bem que dezejasse. 2o. Hoprava-se, e satisfazia-se assim obriozo povo de Portugal, que de certo nunca poderá viver contente se nað se vir governado immediatamente pelos seos Principes. Sim, uma Côrte, verdadeira, mente Real, faz-se necessaria em Lisboa, para satisfazer as saudades do povo, e para lhe poder dar prontas consolaçoens, e fazer-lhe pronta justiça.

Este plano nao pode ter contradicçaõ alguma em politica, e antes elle' hé só o que pode fortificar os laços dos Reinos Unidos, que a natureza tanto desunio, e que só uma bem combinada e prudente força moral pode prender e unir eternamente. Por esta mesma razao, já nós nao aconcelhariamos que o Principe destinado para governar Portugal, fosse outro alem do Principe herdeiro da Côroa: isto poderia gerar grandes obstaculos para a felicidade geral da Monarquia : e por isso, um Principe, mas só um Principe a primeiro herdeiro do throno hé o que convem em politica que, em nome de seo Pai, venha governar Portugal. Dado este primeiro passo, que hé um dos mais importantes, entao hé que se deve passar a cuidar dos mais pontos que menciona o nosso Correspondente de Lisboa. Estes sao:

1. Fazer-se um contracto com o reino de Portugal, que bem explicitamente estipule os termos e coodi. goebs da Uniao, e as obrigaçoens respectivas e reci, procas dos dois paizes em tempos de paz e de guerra,

2. Determinar a extensao do poder executivo, a administraçao e applicaçao das rendas do Estado, e a imposiçaõ dos tributos, com os meios convenientes de extinguir a divida publica, particularmente, a do papel moeda.

3. Pôr termo á emigraçaõ voluntaria, ou forçada de Portugal para o Brazil. Hé verdade, que este ultimo está despovoadissimo, porem tambem o pri meiro o está, e ainda quando toda a sua povoaçao de

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